Vinhos para comida picante Vinhos para comida picante

Vinhos para comida picante

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É fácil encontrar, em Portugal, restaurantes de cozinha indiana, chinesa, tailandesa e mexicana. Saiba quais são os vinhos para a acompanhar.


Publicado em 14-Jan-2022 por José Miguel Dentinho, jornalista

O universo da comida picante é muito vasto. Faz parte integrante da gastronomia de alguns países, como o Vietname, a Tailândia, o Peru, o México ou a Índia, existe na comida africana, europeia, chinesa, etc., é amada por uma parte da população mundial, na qual eu me incluo, e tem direito a Dia Internacional, que se comemora durante este mês.

Começando pela comida indiana, e pelas chamuças de carne e vegetais, continuando por pratos da cozinha goesa, como o vindaloo, o sarapatel e o biryani, uma espécie de pulau típico da Índia e do Paquistão, os caris de frango e camarão e os chacutis de cabrito e borrego, há muito por onde escolher entre os sabores picantes e deliciosos que mais aprecio. Lembro-me também bem da deliciosa e vertiginosamente sopa picante tom yum goong e do gaeng keow wan kai, um caril verde com leite de coco e galinha, com bambu, beringela e coentros, comido ao ar livre à beira da estrada numa viagem entre Banguecoque e o mercado flutuante Damnoen Saduak, na Tailândia, e de todos os arrozes fritos que fui comendo na minha estada neste país.

Depois há os pratos picantes da cozinha mexicana, entre os quais destaco os chilis rellenos (pimentos verdes picantes, assados e recheados com carne, feijão, especiarias como cravinho e canela, verduras e até frutas, e molho picante, como não podia deixar de ser). Intenso e tentador é também o frango ou a galinha à cafreal, de Moçambique, que é temperado com sal, piripíri, alho, limão e azeite, antes de ir aberto para as brasas, ou o muzongue, um caldo de peixe típico de Angola. Em Portugal, para mim, é essencial no frango assado na brasa, no leitão à moda da Bairrada e no pica-pau que faço em casa, que leva, entre outros, pimenta-de-caiena e malagueta. Ou seja, há muita comida picante por esse mundo fora, e há, também, a opção de acrescentar um pouco de picante a qualquer outro cozinhado. Para mim, é imprescindível na açorda e arroz de marisco, na feijoada, seja ela qual for, nos bifes ou até nas saladas de frango, peixe e camarão, que ficam muito melhor temperadas com umas rodelas de malagueta vermelha, depois de retiradas as sementes.

Mas a presença de picante não facilita a relação entre os vinhos e este tipo de comida. Os taninos dos tintos não se dão nada bem com a capsaicina das malaguetas (pequenas, médias, grandes, e de todas as formas) em geral e, por isso, não são opção. Normalmente, a escolha vínica para a comida picante deve cair sobre vinhos brancos ou rosés com boa frescura e, por vezes, com algum açúcar residual. Mas isso não basta, porque é preciso que o vinho se harmonize com os principais temperos e ingredientes das receitas. Não é fácil, mas é possível.

Casal da Coelheira Limited Edition

Produtor: Casal da Coelheira
Casta: Fernão Pires
Ano de colheita: 2020

Intenso, cremoso, com geleia de citrinos, um pouco de baunilha, casca de laranja e especiarias, este branco distinto da Região Tejo tem bom volume de boca, acidez bem integrada e final intenso e elegante, com notas subtis de madeira. Fresco, elegante e com alguma sensação de doçura final, é boa companhia para pratos de peixe, marisco ou carnes brancas, com ou sem picante, e deve ser servido a 10-12 ºC no copo. Sugiro, por exemplo, a companhia de pad thai, para os menos resistentes, ou de salada picante de papaia (som tum), pratos típicos da cozinha tailandesa.

Vinhos para comida picante | Unibanco

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Palmela Branco Botelharia

Produtor: Sociedade Vinícola de Palmela
Casta: Fernão Pires e Arinto
Ano de colheita: 2009

Vinho de cor amarelo-torrada, com aroma em que se salientam as notas de fruta passa a lembrar ameixas brancas, tâmaras e figos secos, este branco mostra, na boca, frescura, evolução e um final longo com notas de frutos secos, a lembrar amêndoas e pistácios. Um vinho para a companhia de frutos e queijos secos, e pratos de massa como carbonara ou lasanha e saladas de frango, com ou sem picante. Servir a 8-10 ºC no copo. Sugiro a companhia de uma açorda de gambas bem temperada de picante, ou do muzongue angolano.

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Quinta das Bágeiras Reserva Rosé

Produtor: Quinta das Bágeiras
Casta: Touriga Nacional e Baga
Ano de colheita: 2020

Vinho bairradino de tom rosa coral e aroma marcado pelas notas de rosas, frutos vermelhos, como groselhas, mais um toque de azeitona. Fresco e envolvente na boca, tem corpo e um final longo e persistente, com um toque de geleia de frutos vermelhos. Deve ser servido entre os 10 e os 12 ºC, na companhia de diversos pratos de carne e peixe, como a galinha cafreal moçambicana, ou o arroz frito tailandês. Cá em casa, fez grande companhia à minha versão de caril indiano de frango, oferecida, para além do arroz bem solto, com cebola picada, rodelas de banana e chetnim ou chutney (na versão inglesa) de manga, para atenuar os efeitos do picante mais intenso, para quem não foi preparado para isso desde criança, como eu.

Vinhos para comida picante | Unibanco

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Mateus Rosé

Produtor: Sogrape Vinhos
Casta: Baga, Rufete, Tinta Barroca e Touriga Franca
Ano de colheita:

Este é um bom exemplo de vinho que fica geralmente bem com pratos de comida picante, pela sua frescura, pelo toque de fruta vermelha e alguma textura e pela ligeira doçura que se sente na boca. Servido em copo de vinho branco a 6-8 ºC, para equilíbrio entre a acidez e a doçura do vinho, tanto fica bem com pratos mais picantes da comida mexicana, como o chili com carne e os nachos rellenos, como o sarapatel ou o chacuti de cabrito da comida goesa, que tanto gosto, e por aí adiante. É quase sempre o vinho que escolho quando vou a restaurantes de comida asiática, incluindo a chinesa, não só porque é boa companhia, mas também porque é a única opção da carta que se adequa à comida picante.

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Por C-Studio / Cofina Media

André Leonardo, o homem que faz acontecer

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André Leonardo é um açoriano que deu a volta ao mundo à procura de histórias inspiradoras. Deu literalmente a volta ao mundo e tem muito para contar.
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