Vinhos para a companhia de um livro Vinhos para a companhia de um livro

Vinhos para a companhia de um livro

min de leitura

A leitura pode saber melhor com um copo de um bom vinho como companhia, apreciado devagar, à temperatura certa.


Publicado em 22-Abr-2022 por José Miguel Dentinho, jornalista

Não faço a mais pequena ideia de quantos livros já li durante a minha vida toda. Mas foi algo que comecei a praticar desde muito novo e ainda hoje é um vício venturoso que não perdi, nem quero perder.

Através deles viajei por muitos mais países e sítios do que aqueles que conseguirei visitar fisicamente. Estive na Lua e em cometas graças a Júlio Verne, descobri a vida vibrante da festa de San Fermín, em Pamplona, com Ernest Hemingway, e mergulhei na magia dos bastidores dos Prémios Nobel, através do livro O Prémio, de Irving Wallace.

No meio de todas as leituras que fiz, houve alguns momentos que se tornaram inesquecíveis pelo lado mais apetitoso da coisa, como aconteceu várias vezes nas aventuras do Comissário Maigret, de Georges Simenon, que me levaram à cozinha burguesa francesa do período entre a 1.ª e a 2.ª Guerras Mundiais, e do pós-2.ª Guerra.

Um dos pratos mais comuns que Maigret come em casa e até mesmo fora, como se pode ler em Maigret e o Vendedor de Vinhos, é a vitela assada, acompanhada geralmente com puré de batata, mas também diversos pratos de borrego, inclusive rins. Entre os diversos pratos de peixe, saliento, porque também gosto, as cavalas assadas no forno com vinho branco de Maigret e o Assassino do Canal.

Outro dos autores policiais que me abre o apetite talvez seja um pouco menos conhecido dos portugueses. Trata-se do norte-americano Rex Stout, sobretudo reconhecido por ter criado a personagem do detetive Nero Wolfe, indivíduo inteligente, opulento, amante de orquídeas, que cultiva numa estufa do último andar, cerveja, que sorve às catadupas e boa comida.

Habita numa vivenda de quatro andares no centro de Nova Iorque, de onde quase nunca sai, com outro detetive, Archie Goodwin, que executa toda a parte prática da profissão, porque não gosta de se mexer, um jardineiro, para as plantas, e um chefe de cozinha, Fritz, com quem se dedica aos devaneios culinários. Numa das muitas refeições, mais ou menos complexas que são descritas nos seus livros, são servidos mexilhões pequenos acompanhados de cebolinhas recheadas com caviar, e cobertos com molho branco, um prato acompanhado por vinho Montrachet, sem data citada. É apenas o primeiro prato de uma refeição complexa, longa e muito apelativa, dada para 10 senhores cheios de dinheiro no dia do aniversário de Brillat-Savarin, um dos mais famosos epicuristas e gastrónomos franceses da história. Este apelo aos sentidos tem apenas como senão terminar com a morte de um dos comensais, como não podia deixar de ser neste tipo de livros. Mas isso são outras histórias.

Por fim, e para não me alongar demasiado, gosto de voltar de vez em quando ao repasto épico, em termos de comida, ação e vinhos, que se passa no livro A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, no 202 dos Campos Elísios, em casa de Jacinto, onde se bebe, entre outros, Chateau d’Yquem, um vinho da região de Sauternes, borgonhas, champanhe a jorros e um Porto de 1834, que envelhecera nas adegas do avô Galião.

Cinco vinhos para cinco livros

Feita esta pequena viagem a livros que me ficaram para sempre na memória por causa da comida e dos vinhos que foram sendo servidos, está chegada a hora de vos contar para que livros selecionei os que sugiro abaixo.

O Esculpido lembrou-me logo, quando o provei, todos os brancos que o Comissário Maigret ia bebendo nos diversos bistrots em que se sentava, fosse em pausas para vigilância, comer qualquer coisa, ou simplesmente porque lhe apetecia. Não sei porquê, mas talvez por estar familiarizado com os seus hábitos por ter lido tantas das suas histórias, acho que seria um tipo de vinho que lhe daria prazer beber.

O Morgado de Bucelas, com a sua frescura, faz-me lembrar o mar, as brisas marítimas e lembrei-me que gostaria de o ter bebido com o romance Estuário, de Lídia Jorge, uma história complexa, parcialmente ligada ao mar, que conta alguns intervalos da vida de uma família lisboeta, aparentemente disfuncional, que fui lendo em consultórios de médicos e nas viagens de metro por Lisboa. Acho que me iria saber melhor.

Para A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, no qual há desde comida de conforto aos pratos mais extravagantes, escolheria sempre o espumante rosé, que vai bem com quase tudo e oferece um prazer reconfortante.

Para um tinto gastronómico, com fruta e estrutura, como o que sugiro abaixo, escolho as Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe, um livro muito bem escrito, que estou a ler nos intervalos do trabalho. Começa por um emparedamento de uma personagem numa adega gigantesca cheia de vinhos de diversas denominações de origem de Bordéus, apenas porque tinha implicado com o narrador. Histórias complexas e difíceis, inverosímeis para seres humanos que se prezem, apesar de bem contadas, merecem uma pausa reconfortante de vez em quando. Escolheria sempre um tinto como o que aconselho abaixo, servido a 16 ºC, para despertar para a vida e me reconfortar das histórias um pouco mais tenebrosas contadas por este autor. Mas isto sou eu, é claro, porque qualquer escolha é sempre um pouco subjetiva.

Depois temos um dos meus tipos de Porto favoritos, um tawny de 20 anos, que sugiro para a leitura de um livro de história, como aquele que tenho andado a ler nos tempos mais recentes, Metrópoles, de Ben Wilson, que nos vai contando muito do que aconteceu com as cidades, incluindo as suas histórias, desde as primeiras aglomerações urbanas da Mesopotâmia, há mais de 6 mil anos, até aos dias de hoje.

Durante este mês comemora-se o Dia Mundial do Livro. Leiam-nos. Vale sempre a pena fazê-lo, até porque ajudam a exercitar a mente e a melhorar o conhecimento. E, se forem adultos, verão que quase tudo sabe melhor com um copo de um bom vinho como companhia, apreciado devagar, à temperatura certa.

Morgado de Bucelas

Produtor: Boas Quintas
Castas: Arinto
Ano de colheita: 2020

Branco de cor citrina com toque esverdeado. No seu aroma, intenso e fresco, salientam-se as notas minerais e de erva fresca, limão e chá verde. Na boca, tem volume, é envolvente e muito longo, com notas citrinas e de chá verde no final. Para a companhia, entre outros, de camarão cozido ou ostras abertas ao natural. Servir a 10 ºC no copo.

Vinhos para a companhia de um livro | Unibanco

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Esculpido Branco

Produtor: A&D Wines
Castas: Avesso
Ano de colheita: 2020

Vinho branco de aroma complexo, com notas de fruta branca e de caroço madura e da madeira de estágio. Na boca, é elegante e volumoso, com boa textura e final longo em que se salientam as notas de caroço e de doce de laranja. Um belo vinho gastronómico para a companhia de amêijoas, lingueirões ou conquilhas à Bulhão Pato, um arroz de marisco ou de lingueirão, uma canja de garoupa e bivalves. Servir a 10-12 ºC no copo.

Vinhos para a companhia de um livro | Unibanco

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Espumante Conde de Cantanhede Rosé Bruto

Produtor: Adega Cooperativa de Cantanhede
Castas: Baga
Tempo de estágio até ao dégorgement: 9 meses

Vinho de aroma intenso, no qual se salientam notas de fruta vermelha. Fresco e persistente na boca, onde tem volume e uma boa cremosidade, é um bom vinho, entre outros, para a companhia do leitão à moda da Bairrada ou de Negrais, ou para toda uma refeição. Para a companhia de leitura, sugiro umas pataniscas de bacalhau para ir fazendo boca. Servir a 6-8 ºC.

Vinhos para a companhia de um livro | Unibanco

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Vidigueira Reserva Tinto

Produtor: Adega Cooperativa da Vidigueira
Castas: Syrah
Ano de colheita: 2019

Vinho de cor rubi e de aroma profundo, marcado pelas notas de fruta preta madura, madeira e chocolate preto. Na boca, tem estrutura, corpo e um final longo, com um ligeiro amargo que lhe dá um toque gastronómico. Um vinho para a companhia de pratos de carnes vermelhas, brancas e de caça, que ficará bem com secretos ou plumas de porco preto grelhadas na brasa, migas com carne de alguidar ou mesmo com borrego guisado. Servir a 16-18 ºC no copo.

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Porto Tawny Vieira de Sousa 20 anos

Produtor: Vieira de Sousa Port & Douro Wines
Castas: diversas de várias quintas da família

Um vinho do Porto de aroma fresco, elegante e complexo, com notas de frutos secos, caramelo e turfa. Na boca, é elegante, fresco, longo e persistente, com notas de frutos secos. É um vinho para a companhia de bolo de amêndoa, bolo de nozes, folar e frutos secos e um livro de história. Servir a 16 ºC.

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Por C-Studio / Cofina Media